"Felicidade é sentir que estou a melhorar"

Gary Hunt
Gary Hunt fala sobre os seus 10 anos gloriosos neste desporto cada vez maior

O Circuito Mundial do Red Bull Cliff Diving está prestes a iniciar a histórica décima temporada, e a década foi dominada por um homem: Gary Hunt. Enquanto se prepara para o início da época no texas, o incrível britânico de 33 anos reservou algum tempo para falar sobre os seus feitos, os objetivos para o futuro e a sua visão sobre a próxima década deste desporto único.

O Circuito Mundial celebra o décimo aniversário esta época – o que vais escrever no cartão de parabéns?
Parabéns ao Circuito Mundial do Red Bull Cliff Diving. Chegar aos dois dígitos é um marco importante, mas ainda és jovem. Desejo-te muito mais anos de sucesso!

Olhando para os últimos nove ou dez anos, o que mudou mais? O que era preciso para estar entre os melhores no início e o que é preciso agora?
Ser forte e ter uma boa condição física tornou-se mais importante; saltos mais difíceis exigem força e precisão.

Qual é o maior mérito do Circuito Mundial?
Chamar a atenção da FINA. Na minha opinião, ser campeão do Circuito Mundial do Red Bull Cliff Diving é o título mais prestigiante do cliff diving, mas ver o desporto ser reconhecido oficialmente foi um momento marcante.

Como te encorajas para ser melhor?
Não existe estagnação no desporto: ou estás a melhorar, ou estás a ficar para trás. Para ser o melhor, tens de trabalhar mais do que todos os outros; não sei como os restantes atletas treinam, mas sei que todos os anos faço o suficiente para me sentir confiante nos momentos de maior pressão.

Hunt vai começar a caminhada rumo ao sétimo título mundial no Lago Possum Kingdom, no dia 2 de junho. Fotografia: Romina Amato/Red Bull Content Pool.

Além de todas as vitórias, dos recordes, e de teres conquistado o estatuto de lenda, qual foi o teu maior feito na última década?
Aprender a falar francês. Aprender a tua segunda língua parece impossível, mas agora já estou a estudar espanhol e russo. Torna-se mais fácil depois de aprender a primeira língua estrangeira.

Tens algum arrependimento?
Cometi vários erros a competir, mas não me arrependo de nenhum; perder tornou-me mais forte. Dito isto, estou constanetemente a ser lembrado pela Sabine de que deixei a manta Omani que nos deram no penhasco antes de saltar; se pudesse mudar alguma coisa, seria isso.

Onde vês o desporto daqui a dez anos?
Nos Jogos Olímpicos e em competições de juniores e continentais.

Onde te vês daqui a dez anos? Achas que ainda vais estar ligado ao cliff diving?
Vou estar sempre envolvido de alguma maneira. Adoro ver e participar, por isso gostaria muito de fazer parte do crescimento do desporto depois de pendurar o meu fato de banho.

O que te motiva depois de tantos anos de carreira e de sucesso?
Para mim, a felicidade é sentir que estou a melhorar; sinto prazer em trabalhar para ser melhor. Penso sempre nas pessoas que sonham estar onde eu estou e sinto que é meu dever não desperdiçar o talento que tenho e esforçar-me.

Qual é o teu melhor momento no Circuito Mundial?
As afterparties no Yucatán (México). Não sei qual delas escolher, foram todas bastante recheadas.

Qual foi o teu melhor salto no Circuito Mundial?
O último salto no Omã, que me valeu a conquista do Circuito Mundial em 2012. Foi uma competição muito renhida e fiz o suficiente para ganhar.

As tuas prioridades mudaram na última década?
Claro que mudaram. O Circuito Mundial marcou a nossa passagem de rapazes para homens; a certa altura, tens de começar a conservar o teu corpo porque a longevidade não é facil num desporto tão arriscado.

O que ainda queres conseguir fazer no mundo do cliff diving?
Ainda tenho alguns "trunfos na manga", mas revelá-los agora ia estragar tudo.

Hunt garante que ainda tem alguns trunfos na manga para recuperar o Troféu Rei Kahekili em 2018. Fotografia: Dean Treml/Red Bull Content Pool.

O Circuito Mundial está a crescer – qual é o passo que tem de ser dado a seguir? O que falta? Será uma competição em todos os continentes, uma época mais longa...
Acho que a pré-temporada é muito importante, caso conrário os atletas iam cansar-se rapidamente. Depois de muitas alterações, acho que encontrámos finalmente um formato bom, mas os locais podem sempre mudar. Há muitos sítios bonitos em todo o mundo por descobrir.

Do que sentes falta quando não estás a competir?
Sinto saudades das pessoas e dos sítios, mas a pré-temporada é boa para descansar e melhorar. Começo a sentir saudades de descobrir novos locais e de estar com as pessoas que ajudam a organizar o Circuito Mundial.

54 pódios em 65 etapas, um total de 30 vitórias, seis Campeonatos do Mundo, três segundos lugares - a tua lista de sucessos parece interminável. Apenas um destes números seria suficiente para te tornar uma lenda do cliff diving. Diz-se que és modesto e não gostas de falar sobre o teu sucesso, mas nunca acordas a pensar que és espectacular?
Durante o ano, fico muito envolvido no mundo do clifff diving, mas quando estou em casa sou uma pessoa normal. Se pensasse em tudo o que tinha conseguido todo o dia, não fazia mais nada. Li algures que a melhor equipa de râguebi do mundo, os All Blacks da Nova Zelândia, limpa o próprio balneário depois de todos os jogos. Eles dizem, e eu concordo, que para ter sucesso estratosférico é preciso manter sempre os pés no chão.

És o alvo a abater – todos querem vencer-te na luta pelo título. Já te habituaste a isso?
Motivamo-nos mutuamente a melhorar. Sem a pressão dos outros atletas, não seria quem sou hoje em dia. Quando era criança e estava com os meus amigos Gavin Brown e Blake, tentávamos sempre ganhar uns aos outros com saltos cada vez mais difíceis e complexos; isso ensinou-me o poder da pressão social no desporto. Quer seja o alvo a abater ou não, vou sempre pressionar os outros como quero ser pressionado.

Qual é o teu plano para 2018? Já conseguiste vencer o campeonato em três anos consecutivos por duas vezes. Vais começar uma nova série de vitórias este ano?
A progressão parece ser linear, mas é cíclica. Há uma fase de aprendizagem na qual o desempenho piora, seguida de uma fase de crescimento. Se conseguir mais uma série de vitórias, ficaria extremamente feliz.

La Rochelle não faz parte do circuito este ano, mas tu tens uma impressionante série de vitórias nesse local especial. Porque costumas ser tão forte nessa etapa? É o público, ou são os amigos que te dão força quando te vão apoiar?
O público ajuda bastante, faz-me ser a melhor versão de mim mesmo. Sempre quis dar espectáculo, e como tinha duas irmãs mais velhas, sempre gostei de me mostrar ao público desde muito novo.

És um dos participantes mais experientes do circuito, e muitos jovens admiram-te. Há algum talento jovem que tenhas "debaixo de olho"? O que aprendes com os mais jovens?
Desde há alguns anos, o maior talento parece ser o Aidan Heslop do Reino Unido. Ele vive na mesma rua da Adrenaline Quarry, um local onde se pratica high diving. Com a paixão que tem pelo desporto e com instalações de treino tão perto de casa, ele tem grande potencial.

Os Jogos Olímpicos vão visitar o teu país adotivo (França) em 2024. Ter o teu desporto nesses Jogos é um objetivo para ti? Porquê?
Muitas coisas vão mudar se o nosso desporto chegar aos Jogos Olímpicos: o mais importante é que teríamos fundos de todo o mundo para construir instalações especificamente para os saltos para a água a grande altura. Será fantástico ver como o desporto vai crescer e os novos saltos que iriam nascer. É definitivamente um objetivo para mim.

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