Gary Hunt finalmente chega ao cálice sagrado do Cliff Diving

Gary Hunt
Os cinco 10s por um só salto que o 'Britânico Brilhante' recebeu em Beirute marcam a história do Circuito Mundial

Depois de 11 temporadas, os seguidores leais do Red Bull Cliff Diving podem ser perdoados por pensarem que já viram tudo o que podiam ver, com saltos de complexidade cada vez maior, ondas vitoriosas recorde e novos máximos de pontuação a acontecer a cada evento. Apesar de tudo isto, havia algo que nunca ninguém tinha conseguido: o salto perfeito, cinco notas 10 do júri. Até que, passados 11 anos do primeiro salto do primeiro Circuito Mundial, Gary Hunt subiu à plataforma em Beirute, Líbano, e finalmente alcançou o Cálice Sagrado do desporto.

A busca pelo salto perfeito não é nada de novo. Desde os primeiros saltos, em 2009, que os saltadores procuram a perfeição. Lá no cimo, na ponta da plataforma, com os olhos fechados por breves momentos, todos imaginam um salto de sonho. Cada mortal, cada rotação, cada pequeno movimento terá de ser executado com máxima precisão rumo a uma entrada limpa em água. Como tudo na vida, passar da visão à realidade nunca é fácil.

Artem Silchenko, antigo campeão do Circuito Mundial, resumiu a dificuldade do feito na perfeição quando disse "um salto é um milhão de detalhes. Tens de saber todos os detalhes. Se cometes um pequeno erro já não é um 10."

10s no Red Bull Cliff Diving

• 4,390 saltos nas competições masculina e feminina e 126 notas 10;
• Mais 10s num só salto: Hunt (5) em Beirute, 2019;
• Mais 10s pontuados - Silchenko (37), Hunt (34) e Paredes (22)
• 10s femininos – Rhiannan Iffland (5), Ginger Huber (1)
• 2017 foi o único ano sem qualquer 10

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Gary Hunt executa o primeiro salto perfeito do Red Bull Cliff Diving em Beirute. Foto: Dean Treml/Red Bull Content Pool.

Apesar de não ser uma ocorrência comum, já houve saltos que receberam dois ou três 10 em algumas ocasiões. Em 77 competições até à data, nas quais foram executados 4,390 saltos, a nota mais alta foi atribuída um total de 126 vezes. Antes de Beirute, porém, só estivemos perto de presenciar um salto verdadeiramente perfeito um par de vezes.

Silchenko foi o primeiro a chegar perto, tendo visto quatro juízes mostrarem-lhe a nota 10 por um salto um Copenhaga, em 2013. Três anos depois, também Jonathan Paredes foi recebido com quatro notas 10 após emergir das águas do Lago Possum Kingdom, no Texas.

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O júri em Beirute não encontrou falhas no último salto de Gary Hunt na Rocha dos Pombos. Foto: Dean Treml/Red Bull Content Pool.

Posto isto, que fez com que o júri decidisse dar cinco notas 10 a Gary Hunt? Qual a sua descrição de perfeição?

"É o fator 'wow'", diz o australiano Steve Foley, que integra o painel do júri desde 2011. "É um salto que quase te faz saltar da cadeira. Queres começar a aplaudir porque é mesmo excitante. Conquistou a tua atenção e tem tudo aquilo que queres: uma ótima descolagem, o poder, a estética, a beleza e, claro, a grande entrada em água."

"Para mim, é um salto que te move quando acontece. Acontece num momento rápido. Se ponderas demasiado e pensas nas coisas provavelmente nunca dás um 10."

É isto que torna o feito de Hunt em Raouché ainda mais espantoso. Não só o britânico executou um salto tecnicamente preciso da descolagem à entrada, como conseguiu que as estrelas se alinhassem de modo a que os cinco membros do júri que o presenciarem ficassem enfeitiçados. Falando de alinhar de estrelas, quão poético é que tenha sido Hunt, sete vezes campeão e detentor de múltiplos recordes do Circuito Mundial, a conseguir conquistar o recorde mais elusivo de todos.

Após o salto, Hunt afirmou que são os seus rivais que o ajudam a ultrapassar os limites e a tentar atingir a perfeição. "Sinto pressão, absolutamente", disse o britânico de 35 anos. "É muito mais fácil para mim quando há luta, quando há outros saltadores a sair-se bem. É mais agradável também. Quero estar numa batalha, não quero que seja fácil, por isso tento usar a pressão."

Recordes de Gary Hunt no Circuito Mundial

• 7 títulos do Circuito Mundial
• 38 vitórias em 77 etapas
• Maior pontuação num salto opcional - 156.00pts (Beirute, 2019)
• Maior pontuação numa competição - 453.70pts (Copenhaga, 2018, com dois 10)
• Salto mais difícil até à data - 5.6 DD, no Texas, 2017 (não executado atualmente)

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Respeito entre rivais. Jonathan Paredes abraça o fenómeno Hunt no Líbano. Foto: Dean Treml/Red Bull Content Pool.

"Gary, meu, o que podemos fazer contra ele?", disse Jonathan Paredes após o salto sobrenatural de Hunt no Líbano. "Parece que ele não sente pressão, que não tem sentimentos. Sempre que o vês, ele parece estar noutro planeta. Após os meus três 10 em Portugal, ele vai lá e faz aquele salto... Ficamos tipo 'o que podemos fazer contra aquilo?'"

Essa mesma questão estará nas bocas de todos os outros cliff divers enquanto Hunt se prepara para conquistar um oitavo título que já não lhe deve escapar. O britânico completou a jornada em busca da perfeição. Agora, os seus rivais têm de se superar nas suas respetivas jornadas para o superar.